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Três hispanistas num voo para Lisboa

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Por Susana Rocha Relvas

Realizou-se na semana de 11 a 16 de julho, o XIX congresso de Hispanistas que reuniu na Westfälische-Wilhelms-Universität, da acolhedora e histórica cidade de Múnster, Alemanha, mais de seiscentos participantes provenientes dos quatro cantos do planeta.

Esta bonita cidade, bombardeada e parcialmente destruída em 1943, reergue-se das cinzas nas décadas seguintes, fruto do esforço hercúleo dos seus cidadãos que hoje, tendo feito as pazes com o seu passado, vivem em harmonia e paz, partilhando entre si e com o mundo que a visita, um legado de civilização de vivat vivere in civilitate que se recebe como um abençoado elixir.

Do que observei, destaco o Jardim Botânico, visitado por famílias de distintas idades, que em ameno convívio com a natureza, partilham deste espaço de sociabilidade em comunhão. Esta é uma cidade jovem, de cultura e de movida, e que, à semelhança de outras cidades da Europa Central, faz da bicicleta o seu principal meio de locomoção. Do estudante, ao executivo, da dona de casa ao cidadão de meia idade, todos são usuários deste ecológico meio de transporte que não passa despercebido ao turista mais incauto, forçado a reaprender a circular numa cidade organizada até ao seu milimétrico pormenor.

Saliento, de igual modo, o principal museu da cidade, o LWL – Museum für Kunst und Kultur no qual, sob a sua inusitada arquitetura, entre o clássico e o moderno, se acolhe um impressionante espólio, desde a Idade Média até à atualidade. O Museu soube arriscar, ao articular a clássica ordenação cronológica com uma organização temática, como acontece com a exposição de quadros e esculturas, de diferentes estilos e épocas, dedicados ao culto mariano ou a Adão e Eva que convivem, nas salas contíguas, com obras de arte contemporânea de Augusto Macke, Lucas Cranach, Ernst L. Kirchner, Edvard Munch e Franz Marc.

Voltemos ao congresso. Este foi um encontro de convergências e divergências, marcado por distintas perspetivas, teorias e temáticas em estudo, que a crítica tem privilegiado na literatura, história, política, cinema e teatro, cobrindo períodos cronológicos, desde a época medieval, Renascimento, Siglo de Oro, Romantismo, Modernismo e Pós-Modernismo. Apesar de alguns dos participantes revelarem desconhecer os temas e as linhas de investigação das chamadas teorias pós-colonialistas, ainda, em voga em diferentes geografias do globo, o certo é que vivemos na área da glocalização, das literaturas mundo onde aparentemente as fronteiras geográficas se dissipam em favor de uma abertura de comunicabilidade entre os povos, de migrações e cruzamentos transatlânticos, mas onde, na realidade, cada vez mais se erguem fronteiras de outra natureza. As sociedades refugiam-se em guetos, elitistas ou favelistas, e o mundo académico ou, pelo menos grande parte dele, acompanha esse fenómeno separatista e segregador, ao fundamentar, critica e metodologicamente, uma barreira cada vez mais visível entre a Europa e a América e o resto do mundo. Barreira que vem delimitando ou isolando, a arame farpado, a ideia de uma Europa, símbolo da herança e matriz cultural do velho mundo, indiferente ou em manifesta oposição aos fenómenos sociais e culturais que as teorias pós-coloniais e de-coloniais, que emergem do continente americano nos últimos vinte anos, têm posto em evidência. No discurso canónico da AIH – Asociación Internacional de Hispanistas só há lugar para a língua castelhana, sendo todas as comunicações criteriosamente pensadas com o fito de evitar o tema confrangedor de uma ibéria “desagregadora”, multicultural e multilinguística, (que outros já começam a ver como espaço inter-relacional e inter-sistémico, Joan Ramón Resina), onde coexistem incómodos nacionalismos “periféricos” que abalam a ideia inventada, como diria Inmax Fox, de uma Espanha unitária e homogénea. Não devemos esquecer, na esteira da saudosa Natália Correia, de que “somos todos hispanos” e que erguer trincheiras entre hispanismos, iberismos e peninsularismos, não colhe fundamento crítico, devendo coexistir, livre de preconceitos, em solidária concordância.

As cerca de 600 conferencias teriam que ser, indubitavelmente, heterogéneas. De entre os inúmeros temas apresentados, saliento, somente, a recorrência de um conjunto de tópicos, interligados entre si, que tem merecido a atenção de estudiosos aquém e além-fronteiras. Refiro-me à Guerra Civil espanhola, ao franquismo e ao exílio que, hoje, os investigadores descobrem em bibliotecas e arquivos num cúmplice labor, reescrevendo a história de uma época negra, a somar a tantas outras, daquele curto e trágico, como diria Eric Hobsbaum, século XX.

Expurgar as consequências das tragédias do velho mundo europeu constitui hoje, na literatura argentina, por exemplo, um filão cultivado por um crescente número de escritoras, como Andrea Stefanoni que, resgatando a memória do pacto de silencio outrora firmado,  narram, geralmente pela voz de um descendente, o turbilhão de recordações envoltas em sofrimento provocado pelo trauma de guerra, da deslocação e do exílio, vividos por um antepassado protagonista ou personagem secundário, mas nunca figurante, da guerra civil espanhola.

A conferência plenária ficou a cargo do Hispanista chileno Randolph Pope, cujo trabalho meritório nos estudos literários hispânicos e de Literatura Comparada dispensa apresentações aos estudiosos destas áreas. Falar sobre a Modernidade não é, seguramente, tarefa fácil, mas o ilustre académico da Universidade de Virgínia soube construir uma engenhosa ideia de modernidade, com fundamento e criatividade, lembrando que já no século XV falar de modernidade era sinónimo de incerteza e de incompreensão de um tempo que tinha tanto de inconstante como de espantosamente surpreendente. Pope não citou Camões, afinal, como ficou provado ao longo dos 6 dias do encontro, Portugal parece tão estranho e longínquo como o eram a Ásia ou as Américas no tempo dos descobrimentos. Pope prossegue a sua análise, explicando como o conceito de Modernidade foi entendido ao longo dos últimos 500 anos de história, da revolução das ideias iluministas à revolução tecnológica dos séculos XIX e XX, onde a indústria, o automóvel e a bicicleta faziam furor e eram sinónimo de um cosmopolitismo partilhado por homens e mulheres. Neste ponto detém-se o orador, com particular presença de espírito, aludindo ao protagonismo emancipador do género feminino nestas andanças modernistas, emancipação que a companheira do ilustre académico, também ela chilena e ativamente presente neste congresso, a Professora María Inés Lagos, tem tomado como missão no mundo académico.

De regresso a Lisboa, o mesmo avião transporta 3 hispanistas. (A presença portuguesa neste congresso seria, aliás, diminuta. A sua ausência daria para outra crónica, seguramente a fazer-se). Um homem e duas mulheres que partilham a mesma paixão, entre os estudos hispânicos, na suas matrizes ibérica, europeia e latino-americana, em solidária convivência e inclusão. Faziam 34º em Lisboa, um clima quase africano contrastando com o clima ameno alemão. O casal chileno irá descobrir os encantos de uma Lisboa cosmopolita, iluminada pelo sol abrasador, verá no Mosteiro dos Jerónimos, na Torre de Belém e no Monumento aos Descobrimentos, a evidência da nossa vocação marítima, que esquecemos e que estamos agora a redescobrir, que fomos tão grandes como os espanhóis, chegamos tão ou mais longe e, orgulhosos do nosso passado, partilhamos em congressos de hispanistas ou outros, a confiança de um saudoso destino ainda por acontecer. 22 de julio de 2016

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Figura 1 – Foto divulgada con permiso de Randolph Pope y María Inés Lagos.

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