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Matrizes africanas em Brasil

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Por Julvan Moreira de Oliveira

Num momento onde é crescente o debate nacional acerca das políticas identitárias, especificamente aquelas voltadas para a população negra, a nossa preocupação  está voltada para a realidade das identidades negras.

Através da mediação da cultura, ponto de partida e de chegada das trajetórias negras no Brasil, a denúncia contra sociedades que, embora complexas, recusam-se a assumir sua pluralidade constitutiva, articula-se em diversos níveis de formação discursiva: político, mítico, científico e simbólico.

As múltiplas tradições implicadas na religiosidade afro-brasileira, como o candomblé[1] e a umbanda[2], também participam dessa teia cultural. Quando nos referimos à tradição religiosa afro-brasileira vislumbramos não uma chamada “cultura originária”, mas uma semântica existencial diaspórica, isto é, um conjunto de práticas, representações e sentidos não meramente perpetuados no tempo, mas reconstruídos por sujeitos forçosamente postos no exílio.

A ressignificação, já não resta dúvida, é fenômeno patente em qualquer tradição, porém, no caso específico dos conteúdos da matriz africana, isso traz uma série de desdobramentos e exige outro tanto de vigilância do observador, porquanto as formas culturais do candomblé e da umbanda ganham sentido apenas em perspectiva, ou seja, como uma espécie de reorganização sociopolítica de comunidades e territórios em espaço alheio.

Trata-se de um movimento não apenas diacrônico, mas, sobretudo, diatópico, uma vez que a dinâmica da escravidão trouxe para o Brasil habitantes das mais variadas partes do continente africano, aportando consigo culturas, hábitos, idiomas, crenças, formas de ser distintas.

No que tange à religiosidade afro-brasileira, colocar em evidência essas institucionalidades (re)inventadas revela o próprio caráter móvel, histórico e político dessas tradições, implica operar um “sistema de referências” que toma a África como metáfora, como direção simbólica para configurar as identidades afro-referenciadas.

Essas institucionalidades negras ensejam formas de organização social encarnadas em territórios que tem ênfase na diferença, aliás, é o que permite a esse imaginário mitológico de justiça fundamentar uma contracultura negra na diáspora ou um discurso político contra hegemônico. Ela coloca-se como alternativa e em oposição à tradição ética da civilização ocidental, a qual perdeu sua legitimidade filosófica.

Penso que, principalmente a educação brasileira, poderia recolher ao máximo as histórias presentes no imaginário afro-brasileiro, auxiliando principalmente os estudos dessas histórias em nossa educação, pois elas também constituem a marca de nossa identidade e trabalhar para que os iniciados nas religiões de matrizes africanas possam sair de seus silenciamentos, assumindo suas identidades, ao mesmo tempo em que se possa conscientizar a população, visando romper com o racismo que se impera contra as culturas africanas, a fim de que elas deixem de ser invisíveis na cidade e ocupem os diferentes espaços, seja da cultura, seja da educação.

[1] Candomblé é termo utilizado cotidianamente para as três principais religiões de matrizes africanas no Brasil: a que cultua os inkises, dos bantos (angolas, congos); a que cultua os orixás, dos nagôs (yorubás); e a que cultua os voduns, dos fanti-ashanti (jêje).

[2] Umbanda, de origem brasileira, é sincrética, apresentando elementos das religiosidades africanas, do catolicismo popular português, das religiosidades indígenas e do kardecismo.

26 de julio de 2016

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