Red Iberoamericana de Investigación en Imaginarios y Representaciones (RIIR)

Lambendo nossas feridas

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Por Julvan Moreira de Oliveira

O Brasil vive um momento em que pensamentos extremamente conservadores avançam, principalmente em discursos contrários às políticas afirmativas implementadas nos últimos 10 anos e que alteraram o perfil dos estudantes no ensino superior público.

Se em 2010 tínhamos menos da metade dos estudantes das universidades federais pertencentes às classes pobres e negros (pretos e pardos), com as políticas afirmativas, que buscam ações para a permanência desses estudantes no ensino superior, através, não só do oferecimento de cotas sociais e raciais, mas de programas que atendem a acessibilidade aos estudantes com deficiência, políticas que pensem a igualdade de gênero, atendendo especificamente mulheres e os grupos LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e intersexuais), além de programas de direitos humanos, de combate a todo tipo de assédio, morais e sexuais e a toda forma de violência, atualmente alterou-se o público dessas instituições.

Mas toda essa conquista corre o sério risco de se acabar, com a presença de uma câmera de deputados e do senado federal mais conservadora dos últimos 50 anos. Aliados a esses, ocorre uma manipulação através dos principais meios de comunicação do país.

Essa manipulação exercida cotidianamente sobre a população mais pobre e, consequentemente negra, implica na defesa de estes continuem em suas condições de ignorantes, sem formação, sem capacidade de exercer as funções mais qualificadas da sociedade, deixando para os herdeiros dos senhores escravocratas as melhores condições de vida.

Um dos argumentos mais utilizados pelos grupos conservadores é a negação das diversidades étnico-raciais, com o discurso de que todos somos humanos, sendo que na compreensão de humanidade está o macho, branco, hetero, implicando na negação da separação étnico-racial que historicamente existe no país.

Esses discursos que avançaram no país com o crescimento de muitas religiões pentecostais e neopentecostais, aliados aos argumentos do evolucionismo social, não compreende que as políticas de ações afirmativas não foram concessão do Estado, mas fruto da luta dos setores das camadas populares.

E, um exemplo desse retrocesso que vivemos é o crescimento dos defensores do denominado “escola sem partido”, projeto que está sendo apresentado na Câmera Federal, assim como em diversas Assembleias Legislativas de muitos estados brasileiros, como em diversas Câmeras de Vereadores de muitos municípios em todo país.

O projeto “escola sem partido”, ao defender uma suposta educação neutra, visa uma censura aos professores, incompatível com uma educação democrática, estabelecida nos artigos 205 e 206 da Constituição Federal de 1988, ao propor a proibição de que professores discutem questões como desigualdades sociais e étnico-raciais, problemas ambientais, econômicos e culturais, silenciando também os estudantes em suas participações política nas escolas e na sociedade.

São feridas que estão expostas e precisam ser cicatrizadas.

30 de agosto de 2016

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