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Heranças aficanas na cultura brasileira

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Por Julvan Moreira de Oliveira

Atualmente, não somente no Brasil, como também em diversos outros países, observa-se uma crescente demanda pelo direito de reparação por parte de grupos tradicionalmente marginalizados, excluídos ou perseguidos. Tais reivindicações são geralmente acompanhadas por aquilo que se convencionou chamar de dever de memória.

Estado e sociedade devem garantir que determinados acontecimentos não caiam no esquecimento e que os grupos detentores dessa memória do sofrimento sejam reconhecidos. Nesse processo, os diferentes grupos transformam o passado em objeto de disputa e uso político, esforçando-se por garantir reconhecimento para determinada versão histórica que lhes sirva como suporte identitário.

Nesse sentido que acreditamos na importância da valorização das culturas indígenas e afro-brasileiras na educação como também para a formação de atitudes de tolerância e combate à discriminação em relação às mesmas.

O espaço escolar é um lugar privilegiado para se multiplicar leituras diferenciadas do passado das culturas de matrizes africanas e indígenas, funcionando como ferramentas poderosas que favoreçam a afirmação de suas identidades culturais perante outros grupos que insistem ora em silenciá-las ora em depreciá-las ou mesmo demonizá-las.

Compreendemos que o conhecimento acadêmico deve contribuir de modo efetivo no combate às desigualdades sociais, raciais e de gênero. Sua produção e circulação devem, portanto atender às demandas de construção de uma sociedade mais justa e de uma educação de qualidade. Esta coletânea vem portanto somar esforços nesta arena inflamada, contribuindo assim para a valorização das culturas afro-brasileiras e indígenas, transformando conteúdo acadêmico em ferramenta do processo de construção de uma sociedade mais justa e livre de preconceitos.

É fundamental revisitar algumas das relações decorrentes do encontro entre diferentes modos de pensar, crer e narrar que os africanos e seus descendentes articularam em sua diáspora no território brasileiro, procurando desvendar os vínculos que mantêm próximas as sociedades africanas e brasileira e, simultaneamente, compreender o acervo social, cultural e político que se constitui num solo fora do continente africano.

Importante também é o estudo das relações entre a vida pessoal e as práticas sociais de nomes expressivos da cultura brasileira e afro-brasileira. Expressivos, sobretudo, pelas ações que desencadearam em seu contexto, questionando valores instituídos e propondo novas formas de convivência entre os diferentes segmentos culturais da sociedade brasileira.

Após quatro séculos de presença e influência de culturas africanas no Brasil, pode-se perceber em nossas terras que não mais se trata por um lado de culturas africanas e por outro de outras culturas desta terra ou aqui chegadas, numa convivência paralela. O encontro das diversas culturas e todos os aspectos que a elas dizem respeito, como as cosmovisões, os idiomas, os costumes, as culinárias, as artes, as religiões, geram um rico processo de encontro e diálogo cultural, além de confrontos, disputas e mediações das quais surgiram nossas culturas brasileiras atuais.

Estudar a presença da influência africana no Brasil hoje é também voltar o olhar sobre este processo de diálogo cultural e mediações de conflitos em seus múltiplos aspectos. O conhecimento surgido daqui nos possibilita entender como as tradições culturais africanas que aqui chegaram não apenas sobreviveram, sob árduas condições dantes e ainda agora, mas representam mundos de sentido, de realização, de plausibilidade a uma parcela da população. Olhar para as heranças africanas no Brasil, assim como as indígenas, não é, pois, somente olhar para o passado, mas para uma realidade contemporânea.

24/10/2016.

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