Red Iberoamericana de Investigación en Imaginarios y Representaciones (RIIR)

O olimpo pode ser de todos

Tais_03_julho_2016

Por Ana Taís Martins Portanova Barros

Mesmo um olhar habituado às imagens espetaculares das Olimpíadas poderá se deixar tocar pela força da presença dos corpos dos atletas que nesses dias de competições estão visíveis em primeiro plano nas nossas telas. Seus rostos crispados pelo esforço, seus músculos retesados, sua postura totalmente empenhada em alcançar o máximo de flexibilidade, agilidade, coordenação traem a disciplina implacável a que esses corpos são submetidos. Tamanha superação e tão persistente coragem contrasta incontornavelmente com os tímidos empreendimentos que os demais mortais fazem para manter a saúde: o que é correr à velocidade de 8 ou 10 km/h quando passa por nós um Usain Bolt a quase 44 km/h?

A diferença entre o homem mais rápido do mundo e nós não é simplesmente sua condição biotípica e seu eficaz encaminhamento na carreira esportiva. Os atletas não são seres caídos do Olimpo, e sim humanos com uma extraordinária força de vontade que lhes dá a coragem necessária para contrariar continuamente os apelos que o corpo de todos nós faz por gastar o mínimo de energia e acumular o máximo. Sabe-se que essa inclinação àquilo que pode parecer indolência é na verdade resultado de um processo natural que auxiliou o bicho-homem a sobreviver em condições de escassez de alimento. A natureza, no entanto, parece não ter ainda incorporado nos seus processos a informação de que hoje o bicho-homem não precisa mais despender grandes esforços físicos para obter alimentos que, não obstante, são poucos calóricos. A cultura nos ensinou a produzir alimentos altamente calóricos, que engolimos em  poucos segundos e aos quais temos acesso sem nenhum esforço físico, redundando em corpos com consideráveis reservas energéticas armazenadas em forma de gordura. Visto assim, é quase como se natureza e cultura não conversassem uma com a outra. Talvez por isso precisemos tanto de nossos atletas.

Atletas nos redimem enquanto coletividade porque seus desempenhos são  flagrante expressão da inseparabilidade entre natureza e cultura. A carne de um atleta carrega toda a força da natureza e o esforço necessário para domesticá-la mostra a potência da cultura. Os dois processos são um só; nosso próprio nascimento já é um ato cultural, cultura essa que camufla ritos mais ou menos próximos da ancestralidade mítica. Os processos do corpo são em grande parte inconscientes e incontroláveis: de modo geral (“geral” porque sei que há entre nós seres com a mente suficientemente concentrada para fazê-lo), nós não podemos decidir o ritmo das batidas do coração ou a velocidade do metabolismo. No entanto, há muitos outros fatores sobre os quais nossa vontade pode incidir, como abandonar as aconchegantes cobertas do leito de madrugada, no momento em que o sono é o mais gostoso, para ir fazer exercícios. Poderíamos dizer que não é natural deixar uma situação confortável para submeter o corpo a suplícios de esforço. No entanto, não somos seres simplesmente naturais. Os jogos de força entre as pulsões da natureza e as coerções do ambiente é que nos definem. A cultura não se encontra em estado puro, nem a natureza. Éxatamente esse jogo redunda na construção do imaginário.

Quando o senso comum diz que os atletas são heróis, não está longe da verdade. Os heróis são seres míticos, capazes de continuamente se erguer acima dos limites daquilo que seria a natureza humana. Vê-los em ação na Olimpíada é reafirmar nossa própria transcendência, já que fazemos parte da mesma humanidade que eles. Isso é possível por causa da reversibilidade da matéria, um dos princípios da imaginação produtiva definido por Bachelard: é assim que o sangue se torna vinho, que a cabeleira se transmuta em água, que o um pode ser o múltiplo e o outro pode ser eu mesmo; é assim que a humanidade se irmana. Ou se irmanaria, não estivesse tão afastada de suas forças simbólicas múltiplas, tão estupefaciada pelas imposições contextuais unidimensonais.

Vencer é um verbo conjugado frequentemente por toda a irracionalidade xenófoba e toda a desigualdade social que nesse momento da história parecem indicar o destino da humanidade. Os jogos olímpicos são bastante sugestivos de como essa pulsão pode ser a base de um esforço que faz cada um dar o melhor de si, onde o objetivo primeiro não precisa ser nem mesmo a vitória, muito menos  a aniquilação do outro. Há muitos lugares no pódio quando o esforço é pela paz.

03 de agosto de 2016

A %d blogueros les gusta esto: