Red Iberoamericana de Investigación en Imaginarios y Representaciones (RIIR)

O imigrante, eterno outro

Tais_03_julho_2016

Por Ana Taís Martins Portanova Barros

As manifestações de milhares de pessoas em Londres ocorridas sábado, 02/jul/2016, contra a decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia, bem como o salto no número de episódios envolvendo xenofobia e racismo registrados na mesma cidade, é mais um episódio da história humana em que  se evidencia a complexidade da relação entre o um, o múltiplo, o outro. Equacionam-se nesse cenário forças simbólicas colocando em tensão a busca pela homogeneidade e a abertura para a diferença, pedra de toque do desenvolvimento do pensamento racional no seu processo de descolamento do pensamento mítico.  Se por um lado a fecundidade de se pensarem as semelhanças e diferenças é atestada pelo edifício racional que construímos a partir dessa prática, por outro lado esse mesmo edifício racional se mostra inútil para resolver os problemas daí advindos.

Pesaram na decisão por deixar a União Europeia fatores como a identidade e o medo da imigração. Segundo enquete divulgada pelo jornal Independent, a maioria das pessoas que votou por permanecer na União Europeia é jovem e autodeclarada “britânica”; já os que votaram por deixar a União Europeia são, na maioria, mais velhos e se declaram “ingleses”. O sentimento de pertencer a um mundo mais ou menos amplo, de ter um tempo mais ou menos longo diante de si parece direcionar as opções, respectivamente, por ficar ou sair. Foi decisivo o medo do outro.

Atributos negativos fazem com que a imigração deixe de ser um fenômeno para ser um problema; na verdade, é sentida como um pecado original, transmitido através das gerações: mesmo os filhos de imigrantes que nasceram e sempre viveram no país para o qual os pais imigraram são marginalizados. Os imigrantes se tornam geradores de pânico, pânico este logo racionalizado com justificações que os apontam como uma ameaça à estabilidade interna e incapazes de compreenderem a cultura da sociedade à qual tentam se integrar. A constante antropológica do medo do desconhecido se encarna na história, abandonando a potência fertilizadora da diferença através de um empobrecimento simbólico que redunda no estereótipo do mal que vem de fora e se manifesta no preconceito contra o imigrante.

Não só é natural que, diante do desconhecido, nos assalte a sensação de insegurança como também são naturais as possíveis soluções de nos dispormos a um jogo dramático com esse desconhecido, de avançarmos para atacá-lo ou, ainda, de recuarmos para lhe dar espaço. Mas são certamente escolhidas as injunções externas que nos levarão a uma ou outra das soluções naturais. São escolhas baseadas em pressões históricas, sociais, culturais – escolhas coletivas, é claro; ainda assim, escolhas.

Na história histórica, construída por decisões supostamente livres, lamentamos sermos vítimas de opções coletivas que não nos representam. Ao mesmo tempo, desprezamos a história mítica porque ela não é feita por nós. Ora, o que faz o homem mítico quando se depara com o desconhecido, o estrangeiro, o outro? Treme de medo e é invadido pela consciência do que o excede, do que está fora dele: o sentimento de ser criatura, germe do sagrado,  permeado pelo respeito profundo, como ensina Rudolf Otto. O homem histórico, avesso ao sagrado – mas certamente afeito a dogmas – , querendo ter nas mãos o seu destino, rechaça qualquer consciência que o invada, preferindo utilizar seus atributos intelectuais para racionalizar o medo. Já esquecidos da profundeza arquetipal, flutuamos na superfície dos eventos, mas não nos livramos das constantes antropológicas que nos acompanham ancestralmente, cuja potência arquetipal, por escolha nossa, se encontra degradada, enfraquecida. Em nome do livre arbítrio, deixamos as coerções contextuais assumirem o comando.

E é assim que distribuímos aleatoriamente semelhanças e diferenças, separando o bem do mal, destacando o verdadeiro do falso e distanciando o anjo do animal. Mesmo não sendo o mau, o falso, o animal, o imigrante atua nesse cenário, na melhor das hipóteses, como um terceiro. A humanidade orgulhosa de ter deixado para trás o pensamento mítico escravo do destino só enxerga duas opções: ou bem estaqueia à beira do abismo cavado para separar o puro do impuro, ou bem se entrega à fagocitose que quer reduzir o múltiplo ao um. Enquanto vigorarem hábitos de pensamento reducionistas como o falacioso  debate de prós e contras, será irretorquível a exclusão do imigrante. Agressivamente repudiada nas políticas de restrição ou absorvida e neutralizada nas políticas de abertura, a diferença é sempre perdedora quando o esforço é de homogeneização.

Se o pensamento abstrato for o único capaz de conceber uma igualdade que respeite as diferenças, esse ideal não chegará à dimensão concreta. É necessário ir ao lugar que prepara o pensamento abstrato para lá reencontrar o desejo mítico por uma outra história no ponto em que suas condições de possibilidade ainda se apresentam.

05 de julio de 2016

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