Red Iberoamericana de Investigación en Imaginarios y Representaciones (RIIR)

Inicio » Imaginación o Barbarie » Manuel Alves de Oliveira » FRAGMENTOS: VALORES, FICÇÕES ÚTEIS E IMAGINÁRIOS

FRAGMENTOS: VALORES, FICÇÕES ÚTEIS E IMAGINÁRIOS

img_2688

Por Manuel Alves de Oliveira

Os imaginários sociais constituem representações da realidade. Por eles e com eles, a par de outras construções configuradoras dos acontecimentos e das experiências, vemos o mundo, convivemos, garantimos referenciais, mudamos a maior ou menor aceitação do que nos chega e do seu sentido, tendo em conta contextos, circunstâncias, sempre diversos e sempre novos. Cada vez mais a reflexão sobre o seu sentido, ou a simples observação desses contextos, suscita e parece revelar que, sobretudo graças a uma híper-informação e a uma aparente comunicação, assistimos a uma ausência de intervenção nos tecidos e sistemas sociais reais, face à crença ou ao mito de que basta a imagem e a sua construção para que os contextos e realidades se alterem. À semelhança do homem mítico, também nós confundimos cada vez mais o simbólico com o real, o sagrado com o profano, a imagem com a realidade. Também nós desenhamos a seta no animal da pintura rupestre e acreditamos que a caçada fica garantida, apesar de a nossa caverna ser hoje outra e poder identificar-se com uma qualquer rede social, um qualquer ecrã de televisão, computador ou telemóvel. Dedilhamos, escrevemos, emitimos um “like”, damos um “palpite” com a leveza de quem não precisa de questionar a “evidência”, e acreditamos piamente no nosso grande contributo para a mudança da face da terra. Talvez tontos, mas aparentemente felizes. E é sob o efeito desta penumbra que olhamos alguns exemplos como a “crise de valores”, o “panama papers”, a liberdade de expressão, ou a crise dos refugiados, entre muitos outros exemplos da nossa “realidade” de todos os dias.

“CRISE DE VALORES”

Vivemos um tempo em que se apregoa e aceita com alguma naturalidade uma “crise de valores”.

Face a esta “crise”, podemos, sucintamente, considerar duas perspectivas: há crise, se considerarmos que valores habituais e tradicionais são frequentemente ignorados e esquecidos; não a há, se considerarmos que outros valores estão na ordem do dia e presidem à acção humana. Podemos, por exemplo, considerar que a coesão social, a solidariedade, a equidade, a liberdade são valores em crise, ou que valores como a competitividade, o êxito, o dinheiro, a “esperteza”, são, entre outros, os grandes valores do nosso tempo.

Talvez a ambiguidade relativamente à crise ou não crise resulte da falta de coragem suficiente para nos olharmos nos olhos, porque, em nome de um certo pragmatismo conveniente, estaremos a construir imaginários onde os valores não passam de “ficções úteis”, escondendo o que é relevante, e dando relevância ao que se não pratica. Importa construir realidades para que se não mude o que deveria ser mudado. Importa simular acções no que não interessa ou interessa pouco, para que, por essa via, se possa dar a sensação de que o mundo está diferente e a mudar. O “habitus principiorum” pode bem ajudar a essa ambiguidade: Não há nada melhor que encher a boca com princípios como a equidade e justiça social para permitir que a desigualdade e a pobreza aumentem. Ou falar todos os dias no direito ao trabalho para que, na realidade, o desemprego se agrave. Ou considerar a democracia um valor, ao mesmo tempo que nos submetemos a tiranias como as do mercado ou aos ditames de qualquer instituição não legitimada democraticamente, de cariz supranacional (a União Europeia pode ser um exemplo). Ou invocar interesses de Estados face ao que consideramos sagrado como os direitos humanos, mesmo sabendo que um Estado parceiro não hesita em desrespeitar esses direitos. Ou convictamente invocar liberdades para permitir que a tirania do livre arbítrio se imponha sem critério ou sem regra. A ficção dos valores e dos princípios vende bem. Apesar dos paradoxos e da sua evidência, persiste o sabor da  consolação de quem domina, e  impera a massagem de quem é dominado. Afinal, uns e outros felizes face a  tantas inevitabilidades.

O “PANAMA PAPERS”

Como se nos não bastassem as surpresas de todos os dias, já banais e naturais, ficamos  a saber, não há muitos dias, que muitos são os chefes de Estado, muitos os políticos e muitos os empresários envolvidos em mais uma das muitas histórias de benefícios e/ou evasões fiscais. Os jornalistas, mais uma vez chegaram primeiro e, nesta matéria, terão desempenhado o seu papel. Não consta, apesar do grande alarido inicial, que os políticos nacionais de todos os quadrantes tenham introduzido grandes mudanças nas legislações nacionais, ou nas práticas ou políticas à escala nacional ou global. Talvez a ficção e o faz-de-conta continuem a fazer a regra. Aliás, só se altera o que verdadeira e efectivamente se quer alterar. Ora, mesmo que a desigualdade e as dificuldades reais de todos os dias possam aumentar, o sistema, com as suas contradições, pode continuar a humilhar e simular. Sempre houve Sísifos felizes na inutilidade. E talvez assim desejem continuar.

Claro que há sempre que distinguir entre o que é legal e o que o não é. Mas, de há muito, autores como Joseph Stiglitz (Nobel de Economia) defendem a necessidade de “encerrar os bancos offshore, e os seus parceiros onshore, que têm sido tão bem-sucedidos a contornar as regulações e a promover a sonegação e a evasão fiscal”. Considera mesmo não haver um único bom motivo para a sua existência, a não ser a evasão fiscal. O que impede a política, e os políticos, de garantir mais transparência, rigor e responsabilização? Gabriel Zucman, em “A Riqueza Oculta das Nações”, além de referir não haver razões para esperar, porque “a dissimulação fiscal pode ser vencida”, alerta para o facto de as riquezas privadas serem largamente superiores às dívidas públicas, e refere ser chegado o tempo de os governos serem confrontados com as suas responsabilidades pela falta de audácia e determinação, dados que “as soluções existem”. Será que querem mesmo mudar alguma coisa?

Continuam as diferenças entre os actos e as proclamações. Talvez a hipocrisia persista como regra de jogo. Ou a persistência na criação de imaginários sociais que garantam o simulacro da mudança.

Poderemos sempre continuar a pensar que as empresas estão descapitalizadas porque o contexto assim o determina (os luxos e mordomias de muitos empresários nada têm que ver com as suas empresas!), que a economia paralela em Portugal não ultrapassa um quarto do PIB, ou que a nível nacional ou global tudo está a ser feito para mudar a realidade. Bastam notícias a dizer-nos “como pensar nisso”. E imaginários que nos ajudem a acreditar.

BRINCANDO AOS REFUGIADOS

Não há muito tempo pudemos ver alunos de escolas, com responsáveis e agentes educativos de todos os quadrantes, em grande jornada de sensibilização para o problema dos refugiados. Era um tal vira-vira de mochilas, cada uma com os haveres mais bizarros, para o caso de alguém se sentir no lugar de refugiado. Se fosse refugiado, o que levaria na sua mochila? As respostas foram das mais interessantes. Telemóveis, livros, conservas, em suma, uma variedade de coisas pensadas em contexto de boa disposição.  Claro que os simulacros são um bom instrumento de sensibilização. Quem duvida da utilidade dos simulacros de incêndio, como prevenção para eventual situação de risco? Mas levar o simulacro a extremos desta natureza, além de ridículo, parece pouco educativo. Banalizar problemas sérios e reais começa, infelizmente, a tornar-se também coisa banal. E é triste que aconteça. Mais triste ainda, vindo de quem tem a obrigação do pensar crítico e reflexivo e de abrir caminhos para essa mesma reflexão. Talvez alguns tenham aproveitado a oportunidade. Mas para muitos, infelizmente, foi mais um motivo de espectáculo e de festa. Imaginários felizes, mais uma vez, como receita para situações degradantes e pouco humanas. Infelizmente, com muita gente feliz e realizada.

A INTERNET, AS REDES E A LIBERDADE DE EXPRESSÂO

Se uma sociedade ou um Estado são totalitários impõem deploráveis censuras. Uma das liberdades que mais sofre é a de opinião ou expressão. E isso é inaceitável do ponto de vista ético ou dos direitos individuais. Lutar pela liberdade de expressão, informação é um imperativo democrático. Dominique Wolton, em entrevista ao jornal “O Público” de 1 de Novembro de 2016, afirma que “o jornalismo trocou a grandeza da oferta pela tirania da procura”, e, referindo-se à internet, diz que “a grande batalha futura não é acabar com ela, mas estabelecer regras. Actualmente é um faroeste que só serve a tirania económica e financeira”. Ou seja: o contraponto à censura dos totalitarismos não é uma liberdade a qualquer preço, ou a ausência de regras. Apesar da insistência das maiorias num imaginário social que confunde liberdade de expressão com pura arbitrariedade e prepotência, ao mesmo tempo que considera que a existência de regras se confunde com censura. É o melhor pretexto para não mudar o que de há muito devia ser mudado. Em trabalho de tese sobre “globalização, competitividade e coesão social – relevâncias e opacidades”, defendemos que a globalização “só o é em parte e nem sempre na melhor parte”, resumindo-se às vertentes comunicacional e económico-financeira, numa relação de estreita dependência e ao serviço de tiranias instituídas. E se não se entende porque não se encerram “offshore”, não se entende como é possível alguém circular em auto-estradas da informação sem estar devidamente identificado para que possa ser responsabilizado pelos seus actos e afirmações. O óbvio não se muda, sem que se entenda porque não muda. Há paradoxos que vendem e vão continuar a vender bem.

Em conclusão, e sem concluir : Valores, afinal, são valores. Simulacros são fingimento de que se tem o que se não tem. E há imaginários que vendem e fazem plausível o que deveria ser inadmissível.

23/11/2016

Anuncios
A %d blogueros les gusta esto: